Tuesday, November 14, 2006

O conto sem ponto nenhum

Estava sentado no quarto precariamente iluminado. Tentava escrever um belo conto. Precisava presenteá-la antes de partir. Buscava no fundo de suas memórias algo que lhe tivesse sido significativo nos seus 79 anos de vida. Desejava escrever algo para deixar-lhe de lembrança! O que seria dela se ele não se despedisse? O que seria do pobre velho se não conseguisse se despedir? Ela merecia, fora ela que o fizera feliz. Sentia uma sensação incômoda tomando conta de seu rosto. Era como se sua criatividade fosse se esvaindo por seus poros. Não conseguia redigir um pequeno conto, uma pequena história sobre duas vidas que se entrelaçaram. Sentia-se exausto. A angústia da criatividade - ou de sua ausência – ainda se prolongou por várias horas. Vencido pelo cansaço o velho deitou-se. Almejava, agora, apenas uma boa noite de sono. Aconchegou-se na cama dura e naquela noite dormiu para sempre.

...

A prostituta Michelle bateu na porta do quarto 19, ninguém atendeu. Entrou vagarosamente como costumava fazer. Perguntou-se onde estaria o pobre velho que nunca faltara o encontro. Achou sobre a escrivaninha apenas um bilhete onde se podia ler: “Querida Michelle”. Contornou o quarto com certa destreza de quem já reconhecia o território, virou as costas e foi para o próximo cliente que já estava agendado para 19:00 horas.


2 comments:

Gustavo said...

O final é ótimo. Não que o texto seja ruim. Mas o final é ótimo. Seco, direto, bem do jeito que eu gosto.

E ainda acho que tinha que ser esvaindo-se.
E que tu escreve bem, mesmo. :)

juliana said...

Bah. Me choquei. Gostei muito. Como diz o Gustavo, os finais surpreendentes são sempre os melhores. Não esperava por isso, esperava uma velhinha caquética que teria um ataque cardíaco, esperava uma neta atenciosa, e lânguida, e depois até pensei na prostituta de bom coração que se comoveria. Mas não isso.

Adorei. Mesmo.