Sunday, December 10, 2006

(sem título)

Chovia. Era um dia diferente. Um tanto quanto frio para aquela época do ano. Pessoas desprevenidas passavam encolhidas, pelas calçadas, em seus trajes de verão.
Absorto ao movimento que provinha das ruas Ele fumava e tomava seu café. O capuccino, como de costume. Lia um romance de um russo qualquer. Gostava dos russos.
A porta do café abriu-se. Mais uma cliente, tentando abrigar-se do frio entrara. Ele acompanhou-a com os olhos, analisando-a. Ela sentou-se em uma mesa próxima a sua, despiu a jaqueta encharcada, pediu um capuccino. Retirou da bolsa um livro, um romance de um russo qualquer. Ele ficou surpreso: “Capuccino e russos!”. Sentiu uma vontade incontrolável de conversar com aquela desconhecida, sentiu-se bobo.
Ela sentira que estava sendo observada. O cabelo molhado lhe caia sobre o rosto. Fumava elegantemente. Percebeu que havia alguém aproximando-se.
Ele em um súbito momento de coragem levantou-se e dirigiu-se até a mesa dela.

- Olá? Será que posso me sentar contigo?

- Ahhn... Claro, seria agradabilíssimo ter um pouco de companhia.

Conversaram por horas. Tinham tantas coisas em comum! Gostavam das mesmas músicas, dos mesmos filmes, das mesmas peças teatrais. Apreciavam o mesmo tipo de comida, mesmos cigarros e por fim dos mesmos russos! O telefone dela tocou: “Alô? Ah sim querido. Eu irei buscar as gurias na creche, ok? Estou com um amigo, você não conhece”. Levantou-se, despediu-se, pediu desculpas, tinha que ir.
Ele ainda estava extasiado com a presença daquela mulher. Possuíam, inegavelmente, uma forte ligação. Sentiu como se tivesse acabado de perder a única pessoa da qual realmente havia gostado. Queria ir atrás dela, não conseguiu.

...


Naquela noite seria difícil dormir. Pensara no rapaz da cafeteria o dia inteiro. Recapitulava palavra por palavra da conversa singular que haviam tido. Quantas coisas em comum! Quanta ligação sentira com aquele rapaz. Sentiu como se ele fosse especial, quem sabe sua alma gêmea? Olhou pro lado e perguntou-se quem era aquele estranho com quem dormia a 4 anos? Que vida era aquela que havia acabado por escolher? Queria fugir! Seu casamento era um fracasso! Poderia tentar encontrar aquele homem da cafeteria! Poderia levar as gêmeas! Nunca mais teria de ouvir o ronco daquele sujeito, do estranho ao seu lado, do seu marido. Sentiu um braço cair sobre si: “Dorme querida, já é muito tarde”. No outro quarto as crianças choravam. As lágrimas dos bebês traziam a mãe de volta à realidade: “ Almas gêmeas não existem”.